Projeto Problema do 9° Prêmio Rhodia-ABEQ (2000)

"Otimização de Unidade Multiproduto"

Introdução:

A empresa QO do Brasil Ltda é uma tradicional produtora de intermediários químicos orgânicos, líquidos, usados nas indústrias de cosméticos, detergentes, alimentos e outras. Possui uma unidade de produção localizada na Grande São Paulo. Com o passar do tempo ela foi perdendo competitividade e mercado devido à falta de métodos modernos de gerenciamento e de capacidade de produção para atender o mercado.

A QO do Brasil, de origem familiar, passando dificuldades financeiras, foi vendida para um consórcio de jovens engenheiros químicos que traçaram como rota de recuperação da rentabilidade duas grandes linhas de ações estratégicas:

a) redução de custo através de reestruturações organizacionais e automação com conseqüente modernização dos métodos de produção e gerenciamento;  

b) aumento de participação no mercado com conseqüente aumento da capacidade de produção desta unidade. Todavia o custo do investimento para um eventual “desengargalamento” (debottlenecking) deverá ser o menor possível.

Trata-se de uma unidade multiproduto, que opera totalmente em batelada. Campanhas de fabricação de cada produto são realizadas rotineiramente, podendo durar de uma a várias semanas, dependendo do mercado e dos estoques de produtos. O quadro 1 mostra a nova capacidade de produção desejada, para cada produto. O ritmo das vendas é tal que pode ser admitida uma saída constante ao longo do ano.

Com base nos dados fornecidos a seguir, pede-se desenvolver uma solução otimizada do “desengargalamento” (somente para a ação b do plano estratégico) para atender a produção máxima, incluindo:

- Verificação do melhor resultado que se pode obter com os equipamentos existentes;

- Verificação do melhor resultado que se pode obter com a instalação de novos equipamentos (reatores e colunas);

- Fluxograma de processo mostrando a situação atual e a situação futura, incluindo a estratégia de controle;

- Dimensionamento dos novos equipamentos propostos com folha de especificação e croqui explicativo (data-sheet);

- Detalhamento de um programa de produção que leve em conta:

- a maximização do ganho econômico;

- o atendimento, pelo menos, dos volumes mínimos para cada produto;

- a minimização do impacto ao meio ambiente.

- Os consumos unitários das matérias-primas e vapor e os custos variáveis de produção por tonelada de produtos puros, considerando que as matérias-primas e o vapor representam 95% do custo variável total.

Justificar todas as hipóteses adotadas e citar as referências bibliográficas consultadas.

Quadro 1 – Dados da produção

 

Produto

Capacidade de estocagem 

(t)

Produção mínima (*)

(t/ano)

Produção máxima (**)

(t/ano)

R

50

1800

2500

S

10

250

400

T

10

250

400

U

50

1000

1500

(*) dados pessimistas do plano estratégico.

(**) dados mais prováveis do plano estratégico para aumentar participação no mercado.

1. Descrição da unidade

A unidade de Produção da QO possui as seguintes seções principais e características:

- Estocagem de matérias-primas: sem limitação e capaz de atender as condições futuras.

- Reação: existe 1 reator agitado de 10 m3, dotado de serpentina interna. O aquecimento se faz usando vapor da rede de 10 bar. O resfriamento utiliza água a 30 0C, proveniente de uma torre de resfriamento. A temperatura das reações é tipicamente de 120 a 150 0C. Temperaturas mais elevadas poderiam ser utilizadas mas trariam o risco de degradação térmica dos produtos.

- Estocagem de produtos intermediários: existem 3 reservatórios de 20 m3, os quais podem ser utilizados para quaisquer dos produtos.

- Destilação: existem 2 colunas que operam em descontínuo, ambas com diâmetro de 1,0 m, equipadas com refervedor de 7 m3 e feixe tubular interno para aquecimento. Cada coluna está equipada com 20 pratos com campânulas (bubble-caps), espaçados de 0,5 m. Ambas estão equipadas com conjuntos de vácuo que permitem trabalhar a uma pressão de 50 mm Hg abs. no topo.

- Estocagem de produto acabado: vide dados no quadro 1. Por questões ligadas à indisponibilidade de espaço físico, não é possível aumentar a tancagem existente.

- Tratamento biológico de efluentes: por lodo ativado, consiste em um tanque de equalização, reator de oxidação, decantador de lodo de reciclo, espessador de lodo para purga e centrífuga para purga de lodo. O lodo produzido é descartado para incineração. O tratamento biológico existente possui folga suficiente para absorver os aumentos de capacidade da unidade de Produção da QO do Brasil.

2. Reações:

                        A    +    B          ->            R

                        A    +    C          ->            S

                        A    +    D          ->            T

                        A    +    E          ->            U

O reagente A é sempre utilizado em excesso molar de 10%. Os reagentes B, C, D e E devem ser convertidos ao máximo, pois a fração não convertida será destinada para incineração durante a etapa de destilação. Por outro lado, a conversão completa de cada reagente demandaria um tempo de reação muito grande, não sendo, aparentemente, viável economicamente. Todos os reagentes são adquiridos no mercado, com uma pureza de 100%.

A velocidade de conversão de cada reagente ( ri ) em produtos pode ser representada simplificadamente por uma equação do tipo ri = ki.Ci, onde Ci é a concentração molar do reagente i (B, C, D ou E) em moles/litro. A constante de velocidade ki depende da temperatura q (em Kelvin), segundo a expressão de Arrhenius:

    ki = ko,i .exp[ - Ei / RT ].

O quadro 2 fornece os valores das constantes para cada reação, assim como a diferença de entalpia DH das diversas reações, as quais são todas endotérmicas.

Quadro 2 – Dados das reações

Reagente

PM (g/gmol)

ko,i  (h -1)

Ei (cal/gmol)

DH (kcal/gmol) @ 25 0C

B

46

14600

10000

14,1

C

100

16430

9600

15,0

D

74

14790

9750

14,5

E

88

27120

10100

15,3

Obs.: 1)  peso molecular de A = 140 (g/gmol).

2) admitir que a massa específica tanto dos reagentes como dos produtos é igual a 1000 kg/m3

3) admitir que reagentes e produtos estão na fase líquida e que o calor específico é igual a 0,45 kcal/kg.0C para todos eles.

Seletividades: Define-se seletividade como a razão entre o número de moles formados do produto de interesse (R, S, T ou U), pelo número de moles convertidos do reagente (A, B, C, D ou E).

A seletividade das reações é afetada pela temperatura. Quanto maior a temperatura, menor a seletividade. A variação da seletividade com a temperatura, no domínio de 120 a 150 0C, pode ser descrita pelas seguintes equações, sendo q a temperatura absoluta em Kelvin:

                        SB = DnR /DnB = DnR /DnA = 0,258 exp ( 528 /T )

                        SC = DnS /DnC = DnS /DnA = 0,151 exp ( 732 /T )

                        SD = DnT /DnD = DnT /DnA = 0,049 exp ( 1180 /T )

    SE = DnU /DnE = DnU /DnA = 0,116 exp ( 845 /T )

Os sub-produtos formados são todos de alto peso molecular, pouco voláteis, e não influenciam a destilação da massa reacional. Esses sub-produtos são destinados à incineração, como resíduos da operação de destilação.

Limpeza entre campanhas: Ao mudar-se a produção de um produto para outro, realiza-se uma lavagem para evitar contaminação. A duração de uma parada para limpeza entre campanhas é de 24 horas, durante a qual são gerados 50 m3 de efluente aquoso para o tratamento de efluentes.

Tempos de transferência: O tempo para carregar os reagentes no reator e aquecê-los até a temperatura da reação é de 2 horas, e o de descarga da massa reacional, ao final da operação, é de 1 hora.

3. Destilação

A massa a ser destilada contém o produto de interesse (R, S, T ou U), o excesso do reagente A, a fração do reagente B, C, D ou E não reagido e os sub-produtos pesados formados na reação. As condições são tais que a fração não reagida de B, C, D ou E é removida do sistema durante as primeiras 2 horas da operação (incluindo-se aí a carga da mistura, a colocação sob vácuo e o aquecimento até a temperatura de início da destilação), visto tratar-se de compostos muito voláteis, comparados com os demais. A partir daí, sob carga térmica constante, destila-se o excesso de reagente A, o qual é recuperado essencialmente puro (teor 99%) e enviado à estocagem para reciclagem ao reator. De modo a manter a pureza do destilado, a taxa de refluxo (razão da vazão de extração de destilado pela vazão de líquido retornando à coluna) aumenta progressivamente ao longo desta etapa. Porém, para efeito de simplificação, considere que a taxa média de refluxo é igual a 2 vezes a taxa de refluxo mínima, calculada no início da operação.

Após destilar todo o excesso de reagente A, a taxa de refluxo é reduzida para 1 e o produto de interesse (R,S,T ou U) é então destilado e enviado para a estocagem. Ao final da batelada, o resíduo restante no refervedor contém os pesados formados na reação e pequena quantidade do produto nobre (10% do total do resíduo da destilação) que são enviados para incineração. A descarga dos pesados consome 1 hora de operação.

O sistema de vácuo gera uma corrente de efluente aquoso para o tratamento de efluentes de 5 m3/h.

As lavagens entre campanhas (troca de produto) têm a duração de 24 horas. Cada lavagem gera um volume adicional de efluente para tratamento da ordem de 40 m3.

As volatilidades relativas do reagente A em relação aos produtos de reação, nas condições da destilação, são dadas no quadro seguinte:

R

S

T

U

2,5

1,4

1,8

1,9

Calor latente de vaporização: considerar que todos os produtos orgânicos aqui tratados têm um calor de vaporização de 20 kcal/gmol nas condições de operação.

Potência de aquecimento: A vazão máxima de vapor a 10 bar, para os refervedores de cada coluna é da ordem de 1000 kg/h.

4. Custos

Incineração de resíduos: O custo da incineração de uma tonelada de resíduos é $ 1200.

Tratamento de efluentes: O tratamento biológico existente possui folga suficiente para absorver os aumentos de capacidade da unidade. No entanto, o custo do tratamento aumenta progressivamente com o volume a ser tratado segundo a expressão:

            Custo ($/m3) = 80000 + 10 . [volume de efluentes a tratar, em m3]

Custo de matérias-primas e preços de venda de produtos (em $ por tonelada): A=1800, B=3600, C=3000, D=3400, E=2500.

A

1800

-

-

B

3600

R

4500

C

3000

S

5100

D

3400

T

4300

E

2500

U

4000

Vapor de 10 bar : Custo de 1 ton de vapor 10 bar = 30 $

Água de limpeza entre campanhas: Custo de 1 m3 de água = 3 $

Custo fixo ou não proporcional: $ 2.600.000 por ano. Isto inclui despesas com empregados (salários, encargos, férias, prêmios), manutenção de equipamentos, serviços contratados, administração, etc. Caso seja instalado um novo reator e/ou uma nova coluna de destilação, calcula-se que este custo fixo será aumentado em $ 500.000 por ano.

5. Dados complementares

Caso julgue que são necessários outros dados aqui não incluídos, faça a hipótese que considere a mais plausível para o caso e justifique.